domingo, 10 de agosto de 2014


Sobre conquistar a Lua

Primeiro de tudo é importante frisar que este livro é um livro pra crianças, de faixa etária que não passa dos 12 anos. Sei que é algo meio fora do que estamos acostumados a ler ou a comentar, mas acredito que a literatura infantil brasileira tem tanta coisa boa a oferecer que não pode ser ignorada. Especialmente pelos adultos, que irão formar nossas crianças também escolhendo o que elas vão ler.
O livro é metafórico do início ao fim. Genial em alguns aspectos. Que traz desde informações óbvias, que qualquer criança captará, até comentários e piadas mais complexas, que exigem, portanto, um acompanhamento adulto – de professor ou de família – para que o livro possa ser apreendido como um todo, sem deixar escapar nenhum dos seus maravilhosos detalhes. Por exemplo, um dos focos do enredo é a história de amor entre Luna Clara e Apolo Onze, personagens que dão título ao romance. Os nomes das personagens, não só dessas como de TODAS no livro, são metafóricos, ou seja, referem-se não só àqueles seres, mas a informações maiores. No caso de Luna e Apolo, não vemos apenas como um garoto de 13 anos consegue conquistar uma menina, mas como os grandes amores - regados a muita determinação, falhas, desencontros, medo e, finalmente, sucesso - nos levam a grandes conquistas, talvez como a da Lua, feita pela expedição Apolo Onze.
Obviamente a linguagem é óbvia, porque é óbvio que é assim que se fala com criança. O quê? Você está bem, Nathália? Estou sim. A linguagem pode ser óbvia, mas não deixa de ser rica e trabalhada, usando tudo quanto existe de figuras de linguagem, como o pleonasmo, exemplificado pela minha frase acima, que brota no livro nos momentos exatos, criando a atmosfera de humor e crítica que o permeia todo. O trabalho artístico foi bonito demais, pois mistura sim a linguagem acessível, com a complexidade de uma literatura de qualidade e de um enredo incrivelmente arquitetado. Em “Luna Clara & Apolo Onze” você descobre a multiplicidade de clímax, alinearidade narrativa, ironia, crítica social, regras de pontuação, história do mundo, de bandas e de livros, intertextualidade, figuras de linguagem e outros múltiplos aprendizados que são incorporados a uma história complicada de bonita.
Há sim algumas coisas que mudaria, infelizmente. A edição é linda, mas as ilustrações são óbvias demais, que interrompem a imaginação da criança. E o enredo tende muito mais a agradar às meninas, pelo foco central da história ser a busca de um amor - pelo pai e pelo marido – e não nas aventuras do percurso. Mas ainda sim o livro é uma graça.
Não há como não se apaixonar por uma personagem como Aventura, que pelo nome já veio desgraçada a viver perigosamente, sempre no meio de suas irmãs conflitantes: Divina – que só ri – e Odisséia – que só chora. A garota que logo vira mulher e mãe se apaixona por Doravante, o homem que escolheu amar daquele dia em diante, que fala rápido porque tem pressa de ser feliz, mas que logo perde sua sorte tentando provar seu amor, e que ganha por consolação uma nuvem de chuva constante sobre sua cabeça, que o segue por todos os lugares, amaldiçoando-o, mas se tornando também o único modo de sua filha achá-lo. Ai... é lindo... inteligente...

E como Ziraldo mesmo disse na apresentação do livro, dá uma certa invejinha por não ter sido eu a escrevê-lo. Estou feliz pelas crianças que lerão este livro.
Escrito por Nathália Mondo Data: 8/10/2014 08:47:00 PM Comente!

0 comentários:

Postar um comentário

  • Skoob
  • Instagram
  • Facebook
  • Youtube

Labels