sexta-feira, 11 de julho de 2014


O fruto nunca cai muito longe da árvore

E não é que ela conseguiu de novo? Fiquei quase dois anos enrolando para comprar este livro depois que foi lançado, pois tinha medo de me desapontar com a nova tentativa de escrita de J. K. Rowling. Só realmente fui lê-lo, porque recebi o exemplar de presente de um aluno, no amigo secreto do colégio no ano passado. E ainda assim demorei mais seis meses para tocar nele. Bom, enfim, lido. E... MEU DEUS, ESSA MULHER É BOA EM TUDO O QUE ELA FAZ. Senti uma invejinha branca nesse momento. Eu tinha certeza que Rowling me frustraria, porque, depois de escrever os sete livros que mais marcaram minha infância e juventude, seria impossível ela conquistar a maestria novamente, principalmente ao trocar de gênero. Mas ela conseguiu.
“Morte Súbita”, apesar do título, não é um thriller, nem pertence ao gênero aventura ou policial. O romance mistura uma trama política com dramas familiares comuns ao século XXI; portanto, desta mistura, só poderia sair uma coisa: infelicidade. Ninguém é contente nesse livro, nem bom. Isto de início me incomodou pela tensão constante do livro, mas foi fazendo cada vez mais sentido ao longo da leitura, enquanto a crítica social da autora ia se concretizando.
O enredo se passa todo num vilarejo, numa micro cidade, onde todos inevitavelmente se conhecem e devem, sem escapatória, conviver, mesmo não se gostando. O cotidiano das pessoas é regado sempre a muita fofoca e nenhuma das personagens parece ter a menor noção de como sua falação pode interferir – sempre negativamente – na vida dos outros moradores. O livro começa com uma morte repentina de um dos conselheiros da cidade e a trama política gira em torno de sua substituição. Mas os dramas familiares são o que realmente importa, pois vemos como uma única pessoa ou sua morte pode afetar de maneiras tão distintas e complexas a vida daqueles com quem talvez ela nem se importava.
A construção da história é genial ao passo que as personagens são apresentadas aos poucos, sem que a conexão entre elas seja claramente feita. E, involuntariamente, tentamos distinguir quem são os malvados dos mocinhos ao longo das primeiras páginas, mas isso vai se tornando cada vez mais impossível ao percebermos que todos os moradores são imperfeitos e das maneiras mais monstruosas possíveis. Há estupradores, pedófilos, drogados, depressivos, viciados em sexo, espancadores, suicidas e por aí vai. De um modo ou de outro todas as personagens nos decepcionam, mas suas ações são todas explicadas e justificadas por fatos que ora as redimem, ora as punem. Ler este livro é cruel, pois se entende um pouco da miséria humana contida nas nossas novas crises. Quando você já desistiu de procurar o protagonista, você percebe que a cidade o é, que as sociedades exemplificadas pelo vilarejo é que estão em pauta. E tudo passa a fazer sentido, principalmente quando os defeitos finalmente são escancarados e as relações reais das personagens entre si são escrachadas.
Muita violência está contida no livro, mas ela é narrada de modo apenas suficiente. Não há exagero ou descrições meticulosas, já que o contexto e o histórico da personagem suprem essa necessidade. Mas, ao mesmo tempo que a autora acerta na dose aqui das descrições, ela erra ao repetir CONSTANTEMENTE as características principais de cada personagem a cada vez que elas entram em cena. É cansativo às vezes.
Fiquei muito feliz de não me lembrar de “Harry Potter” enquanto lia o livro, mas sim de Gabriel Garcia Márquez, autor de “Crônica de uma morte anunciada”, novela incrível que relata como uma cidade inteira, de maneira ora mais ativa, ora por omissão, ajuda a assassinar uma personagem. Senti que o mesmo acontecia em “Morte Súbita”: a pobreza, o desespero, as drogas, o sexo estão infiltrados nos bairros pobres, no quarto dos filhos ricos, no aniversário do avô, na reunião do Conselho Distrital, na escola da região e na camiseta de banda que uma personagem usa, MAS NINGUÉM FAZ ABSOLUTAMENTE NADA. E por essa omissão, regada à fofoca, ganância e descaso, outras mortes ocorrem, mas não mais de maneira súbita, pois já estava óbvio aos olhos do leitor que não havia outra forma de uma sociedade como aquela acabar.
Minha vontade foi de aplicar o mito bíblico de pragas, dilúvios e afins e destruir a cidade, pois só começando de novo algo poderia ser mudado. Depois desse acesso de raiva, me assustei, pois acho que não haveria água suficiente no Planeta Água para lavar nossas injúrias, afinal, a literatura só exemplifica a sociedade real, certo?


Escrito por Nathália Mondo Data: 7/11/2014 06:22:00 PM 6 comentários

6 comentários:

  1. Otávio Catelano13/07/2014 15:14

    Ótima resenha professora!

    Eu ainda insistia em pensar que Barry Fairbrother era o personagem principal pois, mesmo não tendo participado em praticamente nenhum momento do livro, sentia que o drama girava em torno dele. Ainda não tinha pensado em como Pagford poderia ser o "centro" da história.

    Gosto de comentar que o livro confirma a habilidade de J.K. em escrever mortes maravilhosamente belas. Só não cito quais pra não dar spoiler hahhahaha

    Parabéns pelo blog! Beijos!

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    1. Otávio, fiquei impressionada com a capacidade dela de narrar cenas tão cruéis, cotidianas e belas. A autora é fantástica! Fique pensando também em como alguns personagens tentam ser heróis também, como Sukhvinder, Krystal e até o Andrew, mas todos da maneira errada, ou pelos motivos errados... personagens complicadas... ai ai ai... me diverti, em síntese.
      Assim que der leio o livro que ela escreveu sob um pseudônimo... estou curiosa!
      Bjinhus

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  2. (Droga, não sei se meu comentário anterior realmente foi enviado. Perdão se estiver comentando duas vezes - aceite apenas um deles haha)

    Enfim, adorei seu blog, achei sem querer procurando algo na internet e, curiosa que sou, aqui estou.
    Bom saber que você é fã de Harry Potter (eu também sou!!) e fiquei ansiosa pra ler Morte Súbita porque não, eu ainda não li... está na meta de leitura. Mas, depois dessa ótima resenha vinda de alguém que é fã da Rowling e depois da referência ao Gabo (adoro Crônica de uma morte anunciada), acredito que logo lerei ;)

    Beijos, Nina.

    http://literatamor.blogspot.com

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    1. Oi, Nina! Que bom que você gostou da resenha! Sou super fã da Rowling e estava morrendo de medo de ler o "Morte Súbita", mas valeu totalmente! Espero que você goste tanto quando eu. Depois que ler, me conte o que achou, por favor! E passe sempre por aqui!
      Bjos

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  3. Oi Nath, eu estava olhando postagens anteriores e cai nessa, e uau como eu preciso ler esse livro. Tenho ele aqui a algum tempo e ainda não peguei pra ler. Espero que eu goste dele também, já que a autora não me desapontou em Harry Potter.
    Bjos

    http://chamandoumleitor.blogspot.com.br

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  4. Tenho certeza que vai amar! Mas é adulto. Esqueça que é a mesma moça do Harry Potter. Outro universo e bem cruel, na verdade. Achei maestral o livro.
    Bjinhus

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