segunda-feira, 20 de abril de 2015


Entrando no mundo dos quadrinhos

            Há mais ou menos umas três semanas, postei um vídeo no Youtube pedindo ajuda para começar a ler quadrinhos. Dentre as muitas indicações, uma das que mais se destacou foi “Persépolis”, HQ em formato de autobiografia composta por uma iraniana sobre suas experiências com os golpes fundamentalistas e repressivos em questão de religião e liberdade de expressão.
            Muito desse tema tem se discutido na mídia, nas escolas e não poderia fugir a literatura. Mas o que esse quadrinho tem de novo é a personagem e a visão que esta dá aos fatos. Primeiro, ela não deixa de contar de sua vida, infância, adolescência, descoberta sexual e amorosa, conflitos familiares, padrões de beleza que são extras, porém também incorporados ao sistema governamental que ela tanto critica. Gostei dessa visão tão humana, tão próxima de nós a um assunto, para os brasileiros, ainda tão distante. Marj não deixa que as guerras separatistas, as bombas e o fundamentalismo ofusquem seus dramas internos e comuns a qualquer garota. Eles apenas se misturam, intensificando seus problemas.
            E aí entra o segundo ponto interessante do livro, muitos dos problemas pelos quais a personagem passa são causados por ela mesma. Ela não é a vítima martirizada, total. Ela é uma garota que comete erros ao tentar se descobrir. E paga pelas consequências deles. Chega daquele maniqueísmo tão comum dos livros que retratam cenas de grande opressão, como o Holocausto, Revolução Russa ou Cubana, Ditaduras no geral. Temos uma visão sim de alguém oprimido, mas que não é mártir, apenas uma pessoa normal.
            Porém aí preciso fazer uma crítica. Marj é normal, mas nem tanto. Ela é bisneta do antigo imperador. Seu pai é engenheiro. Eles têm dinheiro. E só por isso ela conseguiu sobreviver, ir morar em Viena quando a opressão ficou pesada demais, não foi presa e torturada diversas vezes. E nada disso foi abordado no livro. Soou um tanto hipócrita sua opressão, seus gritos contra o fundamentalismo e sua falta de medo perante os ditadores porque esta sempre tinha um meio de fuga. Pais que pagavam para tirá-la do país, pais que pagavam para tirá-la da cadeia. Pais que pagavam a maconha que ela fumava para se desligar dos problemas pessoais por que passava em Viena (!). Confesso que isso me incomodou. Mas acho que essa é uma das poucas visões oprimidas a que teremos acesso, porque os reais sucumbidos nunca conseguirão se exprimir, por falta de oportunidades, que a Marj teve.
            Adorei o fato das ilustrações serem em preto e branco, quase que refletindo a incapacidade de Marj se encontrar e se achar no mundo. Ela não sabia que profissão seguir, o que estudar, como fazer amigos, acreditar ou não na mídia, como amar. Nem mesmo ela conseguia entender quem era: uma iraniana em Viena, ou a ocidentalizada no Irã. Tudo era confuso, sem cores, amargo. Gostei também dos traços simplistas, não reprimindo, portanto, a criatividade do leitor de preencher os espações e descrições latentes que não eram amplamente representadas nos quadrinhos.

            No geral, gostei muito do livro. Mas ainda prefiro o olhar de “Maus”, por exemplo, muito mais pesado, cruel, sobre perseguições ou catástrofes. Ou o olhar da trilogia “Princesa” sobre a perseguição religiosa sobre a mulher, que também é contata por alguém da elite, mas que se dá ao luxo de analisar com muita humildade esse aspecto.
Escrito por Nathália Mondo Data: 4/20/2015 11:26:00 AM Comente!

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