sábado, 19 de julho de 2014

“Somos feitos do mesmo material dos filmes”

         Dia 2 
    
    O romance-quase-conto de Letelier, “A contadora de filmes”, é pretencioso em suas poucas palavras, mas que deixa um gostinho de missão não plenamente cumprida. O tema é ótimo, os fatos esplêndidos, as cenas são lindas, mas a forma não é coerente. Sensação de um livro/filme/vida que poderia ter sido muito, mas não foi – parafraseando Bandeira.
            A nossa narradora é uma contadora de histórias, precisamente de filmes, e é aclamada na cidade por sua grande capacidade para tal; mas parece que, ao narrar sua própria vida ao leitor, não o faz plenamente bem, pois pouco tem de emoção, não há descrição de gestos, não há cores, rostos, efeitos sonoros, nem palavras o suficiente. A história em essência está toda lá, mas os detalhes pelos quais ela era tão famosa foram suprimidos, ou seja, o conteúdo se sobrepõe à forma em larga escala, o que nunca é bom.
            Fiquei triste com alguns abandonos por parte no autor, por exemplo, o pai da protagonista é supersticioso em relação à letra eme, nomeando todos os seus filhos assim, escolhendo atores favoritos assim etc. O pai diz que a letra dá sorte, mas a menina teima com ele e escolhe um nome artístico que não começa, não termina, nem possui um único eme; ou seja, ela estaria fadada à ruína de acordo com as crenças do pai – o que realmente acontece (ou não?!...) – mas seus irmãos, que assumem os nomes dados pelo pai, também terminam da mesma maneira, ou seja, não há razão alguma para este dado na história, tornou-se algo irrelevante e aleatório.
            Entretanto há partes inteligentes ao extremo por parte do autor, ao confundir, por exemplo, a história da protagonista com a história da sua mãe, de maneira cruel devido a seus destinos. Ou ainda, por propor que a vida é feita de sonhos, ou pelo menos da busca por eles; e os filmes, não são nada mais que a tentativa de materializar esses mesmo sonhos; ou seja, o que é filme e o que é vida se misturam. Portanto havemos de desconfiar da narradora, abandonada, louca, numa cidade fantasma, com gigantesca carga de filmes contados e pouca oportunidade de ser algo a mais do que eles. Não se sabe mais o que os filmes lhe trouxeram de bom, de ruim, ou que se misturou ao que ela era.
É inegável a beleza do final, da imagem construída e, finalmente, descrita aos detalhes pelo autor. Mas que se ofusca frente a tantas questões que poderiam ter sido abordadas amplamente e não o foram, como o papel da mulher na sociedade, as mudanças trazidas pelo advento da televisão, o abuso trabalhista, a pobreza chilena, a ditadura violenta, a prostituição e o alcoolismo domésticos.

De todo o livro, minha maior mágoa foi não ter podido conhecer melhor uma das personagens, o irmão mais velho da narradora: Mariano. Menino que fica gago após a partida da mãe, carregando sempre sua deficiência como marca da saudade, assim como o pai que bebe pela traição e pela inutilidade sexual - que causou a traição. Mariano, deixado à margem da competição pelo título de contador de histórias, por motivos óbvios, só se faz homem ao vingar a honra da irmã – ou será da mãe? Perde a gagueira, mas anos depois vai preso e continua preso por cometer outros atos cada vez mais violentos. Do abandono nasce um psicopata, assim como nasceu um bêbado, um jogador de futebol falido, um desaparecido, um atropelado e uma contadora de histórias.
Escrito por Nathália Mondo Data: 7/19/2014 12:01:00 AM Comente!

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