quarta-feira, 9 de julho de 2014

       
                        Percy Jackson à la X-Man 

O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares” conta a história de Jake, nosso narrador, um menino que era um “zero à esquerda” e que, de repente, descobre que todas as histórias de terror e aventura que seu avô lhe contava quando criança eram verdadeiras. Ele, então, decide investigar as lendas desse avô e o real motivo de sua morte trágica indo até a ilha onde este fora criado. Lá Jake vai buscar o antigo orfanato para crianças fugidas da 2ª Guerra, onde seu avô cresceu e onde as supostas histórias ocorreram. Mas ele é transportado no tempo magicamente por uma fenda temporal embutida num túmulo neolítico no meio de um pântano, encontra crianças mutantes, descobre que ele também é mutante e um monte de coisas estranhas começa a acontecer. Bom, resumidamente toda a ladainha está aí.
            Fiquei frustrada, mas toda a culpa foi da diagramação do livro. Quando você lê esse título gigantesco e promissor, vê a capa com foto de criancinhas estranhas com seus rostos omitidos, lê na contracapa a indicação do TIM BURTON dizendo que ele gostaria de ter escrito essa história, e dentro das páginas amareladas do livro vê fotos autênticas e assustadoras de crianças em poses não comuns, você automaticamente pensa que se trata de um livro de terror. E eu tenho buscado ler um que realmente me assuste e cumpra a proposta há anos. Tentei uma vez ler “A Profecia” e nunca consegui sair da vigésima página, porque eu quase fazia xixi nas calças de tanto medo, portanto pensei em enfrentar outro livro arrepiante para desfazer o trauma e conseguir retornar à “Profecia”; mas nunca encontrei um terror de verdade. Fui iludida pelas promessas da editoração.
            O livro poderia ter abordado tantos vieses complexos, mas nada foi feito. Quando comecei a ler e vi que o avô contava histórias mágicas ao neto e este, ao crescer, deixou de confiar nelas, mais por orgulho do que por ceticismo, pensei que tomaríamos um rumo estilo o filme “Peixe Grande”, que brinca ao extremo da beleza e lirismo com aquilo que é verdade e com o que é apenas verossímil. Mas não teve lirismo nenhum. Aí pensei que, como o avô contava sobre monstros no orfanato em que ficou durante o Holocausto, imaginei que as aberrações seriam meras metáforas dos nazistas e entraríamos num drama histórico. Mas também não. TEM MONSTROS DE VERDADE. Então ok, comprei a ideia. Mas, quando o monstro aparece, ele foi descrito de um jeito tão... ai... sem graça que era impossível sentir medo. O bicho se resumia a um homem com uma boca estranha de onde saía uma língua tripartida e em forma de tentáculos. Sério. Só consegui pensar em “Os piratas do Caribe”, em Davy Jones, e o cara-de-polvo associado a Jack Sparrow não dá medo. Um livro com monstros tem que DESCREVER de verdade o bichinho, envolvendo o leitor.
            As cenas de perseguição e de aventura até que não são ruins, a leitura flui, tem velocidade, mas não assusta ninguém. Então se eu soubesse que era apenas mais uma saga juvenil, teria lido o livro assim e provavelmente teria gostado, porque ele tem tudo de que um “Percy Jackson” precisa. Primeiro, universo totalmente maniqueísta, não tem um único fulano estranho que nem a gente; todo mundo ou é honrado e de perfeito caráter, como os mocinhos do bem, ou feio e com intenções completamente deturpadas, como os vilões. Segundo, só há personagens planas, sem qualquer complexidade; houve vários momentos em que o autor poderia ter explorado melhor a inveja que o pai de Jake sentia da relação do filho com seu pai; ou da falta de amor e afeto que havia na casa do protagonista, tanto entre os pais, quanto entre o pai e o avô, quanto dos pais com ele; das pressões sociais: do pai ser um bobão infantiloide, enquanto era a mãe que provia a casa e não queria que o filho seguisse o caminho do pai; até do bullying escolar ele poderia ter tratado. Mas tudo foi trabalhado de maneira superficial. Terceiro, o orfanato funciona como um local de treinamento para jovens promissores e diferentes do resto do mundo, e também espaço de segurança e diversão idílica. Lá há uma diretora honesta, valente e sábia. Há alunos com todas as habilidades possíveis, mas que se assemelham mais aos quadrinhos e filmes do "X-Man" do que a Percy. Entre outros pontos que poderia levantar. Ou seja, teria dado certo como um livro de aventura juvenil.
            Mas houve coisas que não colaram mesmo. Principalmente o romancezinho entre Jake e Emma. Tudo indo muito bem, tudo sendo muito fofo, mas, espera. Ela era a namorada do avô que nunca envelheceu e que nunca se esqueceu da primeira paixão que a abandonou e que agora está de chamego com o neto. Eca. Quase um incesto. E cadê a conversa sobre isso? Cadê os conflitos pessoais de Jake ao ser usado apenas como substituto desse avô? Ele não é o mocinho? O herói nunca pode ser estepe de ninguém. Meio nojento, além de estranho. Pior: todos os moradores do orfanato têm mais de 70 anos, apesar de terem seus físicos congelados na adolescência ou infância, mas eles agem de maneira muito incoerente com toda a experiência que têm. Eles se misturam com Jake, que realmente só tem 16 anos, e não se vê a menor diferença entre eles. Tudo bem que foram tratados pela diretora como submissos a ela, mas não era para terem evoluído nem um pouquinho?
            Mas o que me irritou no final MESMO foi que não teve final. O filho se despede do pai da maneira mais incoerente do mundo, totalmente improvável para as características tanto do pai, quanto do filho. E nada é concluído. O filho se despede dizendo que pode ser que volte, pode ser que não. Nada se explica sobre a viagem no tempo que farão, não se sabe pra onde vão, o que farão, e para que século estão se dirigindo. Também não se sabe se Jake poderá sair da fenda temporal. E o que acontece com a outra diretora que é raptada? Quantos acólitos são? E quantos etéreos? Jake fica com Emma, romanticamente falando? Sabe quando acaba naquela cena, com os personagens navegando para o além, com um horizonte muito perigoso literal e metaforicamente diante deles? Pois é. Típica tentativa de o autor deixar TODAS AS MARGENS POSSÍVEIS para escrever um segundo, terceiro, septuagésimo livro. Isso é jogo de marketing. É tentativa de fazer você gastar dinheiro e tempo com ele, os quais ele não disse que exigiria de você; não é uma saga pré-definida. É o autor esperando que você o ame tanto a ponto de implorar por mais e, assim, ele misericordiosamente te dar mais. Mas cuidado. Na política, Jânio Quadros tentou fazer isso também...
Nem todo mundo é J. K. Rolling.
Escrito por Nathália Mondo Data: 7/09/2014 01:46:00 PM Comente!

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